
Era tudo tão bom quando ainda a minha visão era límpida, cheia de pureza e ansiedade de qualquer reflexo presente em mim. Tudo me parecia puro e tu, transpiravas vaidade nesse teu arrivismo vestido de timidez. Ainda me lembro quando me olhaste pela primeira vez coberto apenas por uma toalha e de cabelo molhado, num cheiro irreconhecível sem fim. Horas a fio que passavas a contemplares a beleza que hoje passa despercebida, num cabelo grisalho e espigado, sem transmitires qualquer expressão de simpatia. Para onde foi a magia do teu sorriso? Perdi toda a nitidez da razão, pois calculo que com o tempo te esqueceste realmente de ti. É difícil ver-te sentado num cadeirão cheio de pó, perto da janela fixo a um mundo que te rejeita. Tardes a sós com o teu cigarro e o copo de wishky na mão. Pergunto-me por quanto tempo irás ver a vida passar pelo fundo de um copo agora vazio, com sede ilimitada que te mata lentamente. Eu, já quase tão velho como esses sapatos gastos que teimas em calçar, ainda sinto que tenho demasiado para ver e reflectir. Anseio pelo dia em que pares e me fixes; toques no teu rosto e em seguida no meu; quero que relembres esse nosso ego já tão esquecido que em tempos nos uniu.
Nas noites em que a insónia te prende, falas com a lua sem saberes o que dizes. As tuas palavras não são nada, quando o teu estado de alcoolemia ultrapassa o limite que nunca soubeste estipular. Para além de velho és criança desobediente, cego de amores impossíveis. E eu que te olho todos os dias esqueço-me de me esquecer de ti, mesmo tendo consciência de que nada será igual. Ao menos se me desses um terço da atenção que me deste no passado, acredito que o brilho no teu olhar reaparecia e que acordavas para a vida que existe para lá da tua janela. Esse teu pavor de pisar de novo a linha fora do interior da tua pequena casa cansa-me, tanto que ganhei rugas pela indiferença que agora sentes por mim.
Eras demasiado apaixonado, mas perdeste a tua alma nos tantos corpos de mulheres que percorreste. Agora que não tens rumo castigas-me, desprezas-me. Não sabendo que o verdadeiro castigo se aplica no fechar da tua alma, na paragem da sensibilidade do teu coração. Meu velho amigo, dá três passos e junta-te a mim. Traz o cigarro, o copo, a tristeza e até o cadeirão coberto de pó. Tudo menos a solidão. Olha-me, reflecte-te e diz-me o que vês. O mal é nunca parar para olhar. Em tempos fomos um, hoje sou um pedaço das tuas velhas memórias, o reflexo de ti mesmo. Já se faz tarde, parte-me a alma e renasce. Há mil mundos lá fora que esperam por ti.